quinta-feira, 31 de março de 2005

Chatices

Ter obras em casa é daquelas actividades que me conseguem tirar do sério! Tudo virado de pantanas; um pó fininho que se entranha em todo o lado; o cheiro a tinta e a verniz; a terrível sensação de que a casa nunca mais volta ao normal.

quinta-feira, 24 de março de 2005

Descoberta

Um dos incovenientes de não se ser o primeiro pai em lado nenhum é que estamos sempre a beber das experiências dos outros. Confesso que isto me incomoda, especialmente porque não gosto de imitar ninguém; nunca foi o meu género. Daí que ao longo da nossa gravidez tenha tentado escapar àqueles esteriótipos que se atribuem ao futuro pai: "Coloca a mão na barriga", "fala com ela para te conhecer a voz" e por aí. A verdade é que estou a sentir um prazer especial em me apaixonar lentamente pela minha filha à minha maneira e no meu tempo. E muito mais do tentar chegar a ela, tenho-me dado que conta que é ela que chega até mim... e de que maneira.
Vale da Amoreira, Pica Pau Amarelo, Cova da Moura, Fontaínhas, Bela Vista

Tanto faz! É fácil fazer trocadilhos, trazer ao de cima recalcamentos da adolescência, suscitar sentimentos xenófobos por baixo dos panos, descarregar no preto as frustrações de um mau dia no emprego. Mas a verdade nua e crua é que só quem lá vive ou viveu pode falar com propriedade da natureza e dos actos dos que lá estão, mesmo que à priori estes sejam condenáveis. Creio que não se analisam estes fenómenos pelo que está à vista, mas pelas causas que permanecem no silêncio. Vejamos por exemplo: a falta de acompanhamento a todos os níveis dos refugiados da guerra colonial, a abertura à emigração africana para suprir a construção civil de mão de obra barata e ilegal, a falta de preocupação dos sucessivos governos para tornar a "assimilação cultural" um facto concreto. Veja-se em contraste o exemplo dos Estados Unidos ou da Inglaterra. Deixaram-se ao abandono sucessivas gerações de filhos de emigrantes que não estudaram, não aprenderam ofícios e que foram deixados ao esquecimento em bairros de lata, numa realidade surreal à margem dos Colombos e dos Vascos da Gama.
O que é triste é que a culpa vai ser sempre dos pretos, mesmo quando, como foi o caso, é um branco a matar. Afinal de contas, quem criou o monstro?
Feira de Vendas Novas

"As ricas compram na feira, as cagadas vão à loja!"

(Ecos da passagem pela feira de Manuela Moura Guedes que tem um monte perto da cidade)

sábado, 19 de março de 2005

D. Maria

Conheci-a quando vim morar para Vendas Novas. Estava a viver num lugar provisório devido às obras em minha casa, e ela vivia do outro lado da rua. Era uma senhora na casa dos oitenta, marcada pelo tempo, amparada pela bengala, que um dia veio conversar comigo dizendo-me que não dormia há uma semana porque tinha um problema sério. Tinha aceite Jesus no seu coração (por intermédio de uma amiga nossa) mas não sabia como lidar com uma promessa que tinha feito a "Nossa Senhora" e que ainda não tinha pago. Achava que a promessa tinha que ser paga, ou então ela não teria descanso. Como sabia que a nova fé não comportava tais compromissos decidiu voltar à velha forma e assim dormir descansada. De nada valeu dizer-lhe que tal figura não existe.
Esta semana recebi a notícia de que a D. Maria se suicidou com comprimidos no recato e solidão da sua casa. A vida para ela chegara ao fim, quiçá por falta de sentido.
Acredito que aquele momento em que ela vislumbrou uma forma de vida diferente podia ter feito toda a diferença. Cristo faz toda a diferença quando o encontramos pessoalmente. A crendice e a superstição tão próprias da religiosidade portuguesa só ajudaram a aumentar o vazio da alma desta pobre senhora. Esta é a realidade espiritual do Alentejo e porque não, de todo o Portugal. Gente agarrada a imagens e ritos que não trazem vida; apenas aprofundam e aceleram a morte.

sexta-feira, 11 de março de 2005

Silêncio

Cá em casa sofre-se por um animal de quatro patas, que dizem não ser racional. As nossas lágrimas provam o contrário. Não há grande paciência para "blogar".

Volto quando tiver "ganas"...

quinta-feira, 3 de março de 2005

É triste

perceber que a mesquinhez está presente no meio dos cristãos evangélicos portugueses.