terça-feira, 19 de julho de 2005

Sou Mestiço

Passei grande parte da Primária aos pontapés ao meu colega Marco que insistia em chamar-me preto em tom jocoso, sempre que o dia lhe corria mal. Chegou mesmo a valer-me dois meses de castigo no refeitório durante os intervalos! Hoje, passados mais de vinte anos lembro-me que o fazia por orgulho e não por vergonha. Apesar disso, durante muito tempo acreditei que os mestiços ficavam a perder por não serem próprios nem de A nem de B. Mas estava errado e o passar dos anos isso ensinou-me umas verdades. Não há maior riqueza do que estar um dia sentado à mesa a falar sobre a aldeia dos avós na Beira Alta e no outro estar a divagar sobre o Lubango e a Huíla. Não há nada melhor do que poder saborear um bom cozido e disfrutar um bom feijão de óleo de palma com banana e farinha de pau. Não há nada mais vibrante do que sentir o arrepio do fado e o pulsar do ritmo africano. Não há nada mais profundo do que beijar a pele da mãe mulata e do pai branco.
Sou mestiço, crioulo, melangê, cabrito, mulato, misturado, e rico, muito rico.

13 comentários:

Karla disse...

Sem dúvida! Claro que falo de cor, a discriminação existe e nem vale a pena fingirmos que não existe. Mas essa riqueza cultural também! :)

Huck disse...

E eu sou o quê?

JOINCANTO disse...

Se eu fosse mulher dirias que é um pão... rico! eheheheheh

framentosII disse...

Isso quer dizer que tens uma riqueza cultural que nós os "branquelas" não coseguimos igualar por muito que queramos. Graças aDeus pelo que és. Se Ele te fez assim é porque era o melhor.
Blocas

framentosII disse...

Era Bjocas, era o que eu queria escrever

ana disse...

ès tu, Nuno!

a mãe dos miúdos disse...

sou branca (gostei do M em Mestiço), vivi no meio de cozidos à portuguesa e açordas (e não gosto de nenhum deles) com raízes na terra onde sempre vivi, Almada. Não vivi a riqueza das histórias de qualquer canto de Portugal quanto mais de outro país. Nunca fui "pr'á terra" no Verão ou no Natal.
Por isso me delicio com as memórias que a famílias do pai da Joana traz de Angola, com as fotos saturadas de luz e de sorrisos completos, com as histórias da fruta à distância de um braço, com a sua cozinha. Por isso tomei de empréstimo uma história que não é minha mas que será sempre da Joana.

Por isso, sim, és rico. Tanto que nem podes contar.

beijinhos
Sónia

Nuno disse...

Sónia, é isso mesmo! Tal qual! Bjos

Lucas, tu lá sabes! (Índio Joe)

João Leal disse...

muito extraordináriobelo este post, Nuno. 1 abraço

Nuno disse...

:-) thanks vincent!!!

Samuel Rezende disse...

Tomei a liberdade de te linkar. Afinal o que é bom deve se espalhar.
Abraços.

Chespar disse...

A minha bivó tb e Mestiça e eu adoro kamdo ela konta as historias de Angola e ixo...é um espetaculo.

Hipnótico Menino Branco disse...

Aproveita e compra o "Harry Potter and the half-blooded prince" Um abraço!