segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Quem não se sente não é filho de boa gente



já dizia o ditado. E eu ontem senti-me quando vi a reportagem da SIC sobre os bairros degradados, uma peça exibida em complemento da reportagem sobre o programa de reabilitação lançado ontem pelo Governo. Senti-me porque, mais uma vez, a SIC usou o já cansativo truque reles da manipulação de imagens para iludir o incauto telespectador. Este, que eventualmente nunca terá colocado os pés no Vale da Amoreira ficará a pensar que, lá todas as casas têm os vidros partidos, que falta luz à noite, que mal se pode andar nas ruas cheias de lixo e que a cada esquina espera-nos um escroque pronto a sacar o que temos na carteira e nos bolsos.
Estou sentido e penso que tenho autoridade para o fazer, afinal de contas sou fruto do Vale da Amoreira, lá, vivi 26 anos dos 32 que tenho. Estou sentido porque, não pretendendo fazer do Vale da Amoreira um lugar isento de deficiências e lacunas, sei que há lá mais gente de bem do que rufias, há mais amigos que estranhos, há mais sentido de comunidade do que isolamento, há mais árvores do que lixo no chão, há mais casas com apresentação do que casas com vidros partidos, há mais espaço para as crianças brincarem, há mais exposição do que camuflagem.
Estou sentido porque, bem vistas as coisas, bairros degradados há muitos mais do que os suspeitos do costume, dependendo do uso que fazemos do conceito degradado. Degrados em quê? no aspecto exterior? na moral? nos valores? na cidadania? nas oportunidades?
Que dirão acerca disso os moradores de certos bairros do centro de Lisboa, Porto ou Coimbra? Please...
Se há coisa que a SIC nunca fará, e já o tenta desde os famosos «Casos de Polícia», é tirar-me o orgulho de ser da Margem Sul, do Vale da Amoreira, dum simples T3 na Rua das Acácias. A dignidade não se esbate pelos rótulos que nos querem impôr.

7 comentários:

Silvia disse...

nem mais...e o pior é que a Comunicação social tem o poder de «fabricar» opiniões...de certeza mt gente vai achar que a vida passou ao lado desses lugares.

Nuno disse...

Right on! Obrigado pela tua visita!

Daniela Mann disse...

Uma das coisas que mais me impressiona, cada vez que visito Lisboa e arredores, é a quantidade de bairros degradados! Crescem a olhos vistos!!!
Beijinhos

O Chuinga disse...

Brutal....concordo plenamente com o Nuno e mais posso dizer...tal como o nuno vivi muitos dos meus anos no vale para ser mais preciso, 24 dos meus 29 anos. Do vale tenho mais coisas boas do que mas para contar. Um polidesportivo, um parque infantil e varios jardins a volta da minha casa para brincar...coisas que nao se encontram em cidades como Lisboa, Porto e as demais grandes cidades portuguesas...nao era um lugar perfeito, mas digo-vos que recebi mais do meio em que vivi, do que muito dos meus amigos que passaram as suas infancias nessas ditas grandes cidades. tenho o prazer de ainda hoje andar pelas ruas do vale e conhecer as pessoas pelos seus nomes, e ser reconhecido pelas mesmas....coisa que nao acontece nas ditas grandes cidades.

Nao e um lugar perfeito, mas tem muito menos zonas degradadas do que as zonas nao elitistas do centro Lisboa ... como por exemplo a Avenida da Liberdade...e fico-me por aqui.

Rui Daniro

Lucia disse...

Eu conheço o bairro e também achei que na reportagem só mostraram as coisas más...
Infelizmente é o jornalismo que temos...

Nuno disse...

Conheces????

Lucia disse...

Sim moro na Moita, o meu marido estudou no Vale da Amoreira e tenho uma cunhada que mora lá...
Beijinhos